Arquivo da categoria: Jesus

Sabedoria das Parábolas

rodhen

A editora Martin Claret, numa decisão muito importante para a literatura universal, decidiu fazer uma coleção da obra-prima de vários autores, editando centenas de livros que considerou a obra-prima de cada autor, e entre estes fez publicar a magistral obra de Huberto Rohden, Sabedoria das parábolas. Nascido na cidade de São Ludgero, no estado de Santa Catarina, era estudioso da doutrina espírita, educador e filósofo, traduzido os quatro evangelhos do grego, tendo publicada mais de 65 oras, atinge neste seu livro as mais excelsas culminâncias da visão cósmica da mensagem do Cristo.

Ele transcende todo intelectualismo e, por meio de luminosa intuição, explica não somente por linguagem simples e atual a simbologia que existe por detrás das parábolas, mas também sobre a mística das beatitudes, tornando a obra o caminho para iluminação e cristificação do corpo e do espírito. No prelúdio ele imagina o jovem carpinteiro, depois dos labores diurnos, subir lentamente os montes escarpados que se erguem por detrás da cidadezinha de Nazaré, sentar-se num dos penhascos cinzentos, com o rosto voltado para o Ocidente, onde o sol mergulhava nas águas azuis do Mar Mediterrâneo. Durante os três anos de sua vida pública, refere o evangelho, passava Jesus noites inteiras no alto dos montes ou na solidão do ermo, em sintonia cósmica com o infinito, e dessa profunda e vasta experiência direta do reino de Deus brotaram as parábolas. Toda parábola, ensina o autor, consta de dois elementos; o símbolo material e o simbolizado espiritual. O símbolo material, tirado da natureza ou da sociedade humana é compreensível a todos; mas a compreensão – simbolizado espiritual – depende do estado de evolução de cada um.

A obra comenta as várias parábolas dos evangelhos, entrecortadas em vários capítulos e versículos cuja leitura necessita de visão espiritual para apreender o ensino das mesmas. Entre as várias parábolas comentadas em sua obra, o autor inicia com a do Filho Pródigo (Lc 15, 11-32). É da lavra do autor o extraordinário comentário desta parábola:

“a história do filho pródigo encerra uma metafísica de infinita profundidade e uma mística de inaudita sublimidade, o filho mais velho representa um ser humano que, longe de atingir as alturas da individualidade do Eu divino, nem sequer despertara para a personalidade do seu ego humano. E quem não tem consciência do seu ego ão é possuidor de nada, como os seres da natureza, que nada sabem de posse ou possessividade.”

Por isso, diz muito bem o Pai, que simboliza Deus. “Tudo que é meu é teu.” Tudo que de Deus é também do mundo infra-humano – mineral, vegetal, animal -, mas esse mundo nada sabe de “meu”. O infraego não possui nada, nem sequer um “cabrito”. A consciência do “meu” é um corolário do pequeno “eu” personal ou ego.

O filho mais novo havia chegado à ego-consciência personal e a tinha superado, atingindo as alturas da Eu-consciência cósmica. O hino místico Exultet, que se canta anualmente na véspera ou manhã da Páscoa, exclama: “O felix culpa! O vere necessariun Adae peccatum, quod talem et tantum meruisti Redemptorem! [Ó culpa feliz! Ó pecado de Adão realmente necessário, que tal e tão grande Redentor mereceste!]”

No final da obra o autor analisa a mística das beatitudes e resume o que o mestre disse depois de proferir as oito proclamações que representam a plataforma do reino de Deus: “Vós sois o sal da terra; Vós  sois a luz do mundo!”

Ubirajara Emanuel Tavares de Melo, vice-presidente da ADE, diretor do NEIL e Maçon. Texto publicado no Jornal do Commercio, de 12 de maio de 2013.

Um cordel de Natal

mensagem_cordel_natalino

Na véspera de Natal, celebramos a fraternidade e a paz entre os homens de boa vontade. Hoje não é diferente. Filmes contando a vida do menino Jesus, o mistério em torno do Seu nascimento, a perseguição de Herodes e fuga para o Egito, povoam os canais de TV. Documentários abordando fatos e indícios arqueológicos tomaram conta da grade de programação dos canais privados. A história do Salvador do Mundo é contada solenemente há dois milênios e não poderia ser diferente considerando tratar-se do mais perfeito ser humano que a bondade que Deus nos ofertou para servir de guia e modelo (L.E. – 625).

Para celebramos o nascimento de nosso Mestre e Guia, disponibilizamos em nosso álbum de vídeos uma animação utilizando a arte e o estilo cordelistas associados à xilogravura que conta, em pouco mais de seis minutos, a história do nascimento do Messias. Excelente trabalho que o jovem Euriano Sales disponibilizou no Youtube.

Tenham todos um Natal de paz no coração e de muita harmonia vindas diretamente das mãos do Divino Rabi da Galiléia!

·

Se alguém vos bater na face direita…

evangelho

…lhe apresenteis também a outra; e que se alguém quiser demandar contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. – Dai àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar emprestado. (Mt. V, 38-42)

Nessas linhas, Jesus prega a mansuetude e o combate ao espírito de beligerância. Essa interpretação é a mais comum e a mais direta que se pode extrair do texto. Mas se a leitura é mais atenta e meditada, outras possíveis interpretações começam a surgir, comprovando a riqueza contida nas palavras proferidas pelo Divino Mestre.

O estudo do Direito nos põe diante da ciência da interpretação – a Hermenêutica – e entre os vários postulados que enuncia, há um que nos alerta para o significado que cada palavra tem numa proposição, ou seja, não há palavra inútil numa frase, todas elas encerram um sentido, uma função, e quem as coloca tem um propósito, principalmente em se tratando de Alguém que sabe bem o que diz.

Porque Jesus ao citar a violência física que é bater no rosto de alguém, especificou “a face direita”? Por que não disse simplesmente “bater na face” ou “bater em uma das faces”? O Mestre fez referência expressa à face direita. Quis Jesus referir-se tão somente ao ato de violência que não deve ser revidado pelo agredido por não ser uma conduta pacífica ou quis dizer algo mais?

Quando tratamos de abordar a passagem evangélica em que Jesus nos adverte  que não saiba a nossa mão esquerda o que faz a nossa mão direita, tratamos de demonstrar que na cultura da época, essa informação aparentemente sem importância – “lado direito” e “lado esquerdo” – tem enorme significado.

Ao se referir ao tapa que alguém desfere na face direita de outrem, Jesus está se referindo a uma agressão, uma violência que não deve ser revidada, isso está claro. Um tapa na face direita poderia ter significado de desafio, era como propor um duelo, uma contenda. Oferecer a outra face seria rejeitar o desafio. Mas acreditamos que Ele tinha algo mais a dizer. Jesus poderia estar tratando da agressão justa.

Quando um sujeito recebia uma ofensa, algo que indicasse uma desonra ou desrespeito, levando em conta que a ampla maioria das pessoas eram e são destras, era comum o ofendido, usando a mão direita (a mão “certa” e que seria a indicada para castigar alguém por uma ofensa recebida), desferir um golpe na face direita do ofensor, batendo com as costas da mão, como se estivesse cobrando um pedido de desculpas ou aplicando um castigo pela desonra, impondo respeito. A intenção não era agredir ou ferir, mas humilhar.

Nas duas proposições seguintes à passagem destacada, o significado e o contexto são os mesmos, guardam lições semelhantes, retratando situações em que uma pessoa é demandada ou cobrada por algo que deve ou que tem a obrigação de fazer, pois só quem deve ou está obrigado a fazer algo (ter uma obrigação) é passível de ser demandado (exceto no caso de demanda indevida).

Acreditamos, assim, que o Mestre também estava falando de humildade e resignação. Reconhecer o erro e aceitar a consequência é um ato de submissão à lei de causa e efeito. Quem age assim está dizendo para si mesmo: se errei ou se faltei com alguma obrigação é justo que eu sofra as consequências!

E Jesus pede para irmos além da consequência, Ele nos conclama a agirmos com honra e justiça, entregando o que devemos, cumprindo nossa obrigação, sofrendo as consequências de nossas ações, não somente na mesma medida do débito ou da obrigação, mas em dobro (Lc. 19:1-10), pois, agindo assim, aquele que está em falta demonstra ao ofendido (o credor) que está disposto a recompensar-lhe pelo mal-feito não só quitando a conta, mas fazendo-lhe um bem ou, ainda, aceitando reprimenda dobrada em sinal de arrependimento.

Mais uma vez o evangelho nos dá prova da completude do pensamento do Divino Rabi. A sabedoria e a beleza de Suas lições foram registradas pelos esforçados discípulos de maneira muito simples, como provavelmente Ele as proferiu, chegando, às vezes, a passar desapercebidas a um olhar menos atento.

 

Semear é preciso. Arar o solo é fundamental.

A estes doze enviou Jesus, dando-lhes estas instruções, dizendo: Não procureis os gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos; mas ide antes às ovelhas que perecem, da casa de Israel. E pondo-vos a caminho, pregai, dizendo que está próximo o Reino dos Céus. (Mateus, X: 5-7)

Muitas vezes, quem procura uma religião ou uma doutrina de viés religioso está, decerto, motivado por questões íntimas ou forte desejo de contribuir para o bem-estar geral, resultado de valores aprendidos ao longo de milênios de evolução.

Não se pretende falar aqui de religião enquanto crença ou doutrina, mas do sentimento religioso, e isso até um ateu e materialista pode desenvolver, bastando ser detentor das premissas básicas: a empatia e a compaixão. As religiões, quando bem dirigidas e compreendidas, também realizam esse mister.

Ouve-se sempre vozes se levatarem para asseverar a necessidade da vivência da solidariedade, da colaboração mútua, da vida fraterna, da conscientização para conservação do meio ambiente e para o uso racional dos recursos naturais e assim por diante. Porém, como incutir tais valores, como semear esses ideais e princípios num meio em que predomina o egoísmo, a luta individualista pelo destaque pessoal, em que se busca amealhar o máximo possível de recursos, não importando quanto custe ao planeta?

É impossível dar certo! O terreno é árido e impedirá que ideias como essas frutifiquem.

Não foi sem razão que o Cristo ressaltou a importância de semear em terreno preparado. Em sua mensagem aos discípulos recomendou levar a Boa Nova antes às ovelhas desgarradas de Israel, por ser um povo já preparado, dotado dos princípios básicos necessários à compreensão dos valores e princípios transformadores que Ele estava semeando. Os gentios, os samaritanos e todos os povos que desconheciam tais princípios não seriam capazes de absorver e fazer frutificar as sementes novas que a bondade divina permitiu chegassem por aqui. Era necessário arar o solo espiritual e os discípulos ainda não estavam prontos para a árdua tarefa. Mais tarde, Paulo de Tarso iria iniciar esse processo.

Então o que fazer para que a sociedade assimile, desenvolva e frutifique os nobres ideais da vida consciente, fraterna e colaborativa? Somente preparando o terreno com a charrua e o arado da empatia e da compaixão, sem os quais nenhum sentimento nobre é capaz de florescer.

Um bom começo seria desestimular práticas que excitam o egoísmo e o orgulho; reconhecer e valorizar atitudes colaborativas; incentivar o compartilhamento de ideias e recursos, premiar o mérito do desapego.

Vamos pensar um pouco: posso viver bem, de verdade, quando a maioria das pessoas vive mal? Posso ser feliz, em plenitude, quando tenho notícias de que muitas pessoas passam pela vida conhecendo apenas dores e amarguras? O que posso fazer para ser realmente feliz e viver bem?

Reflitamos!

A determinação em recomeçar

“Levantar-me-ei e irei ter com meu pai…”. (Lucas, 15:18)

Quando o filho pródigo, descrito na parábola por Jesus, deliberou retornar aos braços paternos, após ter recebido sua herança e a desperdiçado em futilidades e ilusões, criou para nossa reflexão um dos mais significativos símbolos de arrependimento, coragem, determinação e maturidade.

Reconhecendo seus equívocos não vacilou em recomeçar, aceitando a condição de um empregado da propriedade do pai, pois tinha consciência de que não merecia ser tratado mais como um filho, embora não esperasse a reação fraterna do genitor, que, ao avistá-lo, o acolheu num abraço carinhoso e meigo.

De nossa parte, inúmeras vezes também deliberamos seguir caminhos contrários àqueles que nos asseguram avanço moral, prosperidade intelectual e crescimento espiritual, criando a urgente necessidade de decidirmos por novos rumos e outras direções, sustentadas pela esteira dos valores da dignidade, da honra e da honestidade.

Se preciso, ergamo-nos da inércia, da apatia e do desânimo e, fortalecidos pela fé, deixemos a rede macia do comodismo em esperar que a vida nos dê tudo de forma gratuita e busquemos conquistar virtudes, enquanto empreendemos esforços para a extinção dos defeitos, que ainda nos mantêm na condição de inferioridade e sofrimento.

Se a tristeza insistir em povoar os nossos pensamentos e derramar insatisfações em nossa vida, levantemos a confiança em Deus e tenhamos a certeza inconteste de que o Pai Celestial, amoroso e bom, justo e perfeito, em circunstância alguma deixará de atender às nossas necessidades.

Se a moléstia insidiosa continuar a nos manter no leito de dor, embora todos os esforços de médicos, hospitais e remédios, levantemos a esperança nos dias do porvir, nos recursos que a tecnologia vem desenvolvendo, pois o amanhã poderá surgir com novas cores e propostas.

Se familiares queridos deixaram o nosso convívio pelos mecanismos da desencarnação, renascendo para a vida espiritual, abrindo enorme lacuna em nossos corações, que se repletam de saudades, levantemos a certeza na imortalidade e prossigamos convictos de que um dia, no futuro, em outras dimensões vibratórias, novamente estaremos com eles.

Se o abandono e a solidão estiverem nos acompanhando com frequência, escurecendo os nossos momentos e amargurando a nossa vida, levantemos a vontade de refletir e meditar, pois, às vezes, diante do nosso comportamento e atitudes, quem sabe estaremos impedindo a aproximação das pessoas ao nosso redor?

Se os recursos financeiros e materiais se escassearam, criando dificuldades e embaraços para que possamos honrar nossos compromissos, levantemos a força e a perseverança e saiamos a trabalhar ainda mais, na confiança de que o labor nos conduzirá a novas perspectivas.

Se os filhos que chegaram ao nosso lar e para os quais nos empenhamos ao máximo, visando educá-los, mostrando-lhes os caminhos da decência e da dignidade, resolveram não atender aos nossos insistentes apelos de moralidade, levantemos a paciência e esperemos pelas sábias lições da vida, que farão, certamente, aquilo que não conseguimos agora fazer.

O filho pródigo, depois de perceber o equívoco cometido, diante do sofrimento decorrente da escassez de recursos financeiros, por ter gasto a herança recebida de forma inútil, inconsequente e irresponsável, caindo no arrependimento, teve forças para levantar, sacudir a poeira e voltar ao lar paterno, nem que fosse na condição de um empregado do pai, para recomeçar a vida.

Em oportunidades inúmeras, também nós, ao percebermos os erros e os enganos deliberados, temos absoluta necessidade de levantar a nossa vida e buscar o apoio de Deus, para recomeçar, e, por certo, Ele também abrirá seus braços para nos acolher num abraço…

Reflitamos…

Waldenir Cuin – texto publicado em O Consolador

·