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O argueiro e a trave no olho

criticas

Por que vês tu, pois, o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu olho? Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do teu olho o argueiro, quando tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeira a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão. (Mateus, VII: 3-5)

Como ler o texto acima e não pensar em reforma íntima? É disso que fala a passagem evangélica. Trata também de nosso comportamento perante as imperfeições dos nossos semelhantes, nossos irmãos. Uma leitura apressada poderia sugerir que o Mestre Jesus condena qualquer conduta no sentido de apontar ou indicar a alguém alguma imperfeição sua, no campo moral, notadamente.

Será esse um raciocínio correto? Vejamos como Allan Kardec abordou o tema em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” – Cap. X – Bem-aventurados os misericordiosos, com esclarecimentos do Espírito São Luiz (item 19 e seguintes):

Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?

Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprido com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido. – S. Luís. (Paris, 1860.)

Será repreensível notarem-se as imperfeições dos outros, quando daí nenhum proveito possa resultar para eles, uma vez que não sejam divulgadas?

Tudo depende da intenção. Decerto, a ninguém é defeso ver o mal, quando ele existe. Fora mesmo inconveniente ver em toda a parte só o bem. Semelhante ilusão prejudicaria o progresso. O erro está no fazer-se que a observação redunde em detrimento do próximo, desacreditando-o, sem necessidade, na opinião geral. Igualmente repreensível seria fazê-lo alguém apenas para dar expansão a um sentimento de malevolência e à satisfação de apanhar os outros em falta. Dá-se inteiramente o contrário quando, estendendo sobre o mal um véu, para que o público não o veja, aquele que note os defeitos do próximo o faça em seu proveito pessoal, isto é, para se exercitar em evitar o que reprova nos outros. Essa observação, em suma, não é proveitosa ao moralista? Como pintaria ele os defeitos humanos, se não estudasse os modelos? – S. Luís. (Paris, 1860.)

Haverá casos em que convenha se desvende o mal de outrem?

É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se toma apelar para a caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes. – São Luís. (Paris, 1860.)

Como bem explicou São Luiz, tudo é uma questão de intenção e modos de fazer. Enxergar em alguém suas imperfeições não está vetado, demonstrá-la ao seu detentor pode até ser um ato de caridade. Mas é necessário ter habilidade para tal, saber se será bem compreendido, buscando conhecer a pessoa e suas susceptibilidades (sensibilidade à crítica). Para tanto, algumas empresas e organizações ministram treinamentos aos funcionários, ensinando a arte da crítica bem feita, o famoso feedback. Imagine como seria difícil para uma instituição estimular o desenvolvimento e a evolução de seus funcionários se a crítica e o feedback fossem proibidos para evitar susceptibilidades?

Também faz parte desse aprendizado a auto-análise, buscar conhecer a si mesmo, procurar saber se a imperfeição que se quer apontar no outro também não se encontra em si mesmo (e quase sempre está lá), a fim de realizar a auto-crítica com amor, com indulgência, buscando compreender porque ela, a imperfeição, faz-se presente no íntimo. Fazendo isso, entendendo seus próprios processos mentais e psicológicos, algo possível se a auto-análise é sincera, abre-se a oportunidade chegar no próximo, apontar-lhe o cisco do olho com amor e compreensão.

Sem esse processo, é melhor nem arriscar a crítica, para não dar ensejo à mágoas e desentendimentos. É recomendável, antes de tudo, aprender a auto-análise e a autocrítica, dominar suas técnicas a contento e, quem sabe, fazer um curso de feedback (com certeza irá ajudar).

Uma crítica bem feita, com amor e compreensão, não magoa nem ofende, ao contrário, é sinal de verdadeira e sincera amizade.

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Cuide da mão esquerda e invista na mão direita

Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; – a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará. (MATEUS, 6: 3 a 4.)

Jesus é o modelo de perfeição a que a humanidade pode aspirar, disseram os espíritos à Allan Kardec (LE, 625). Foi o maior Pedagogo, o maior Psicólogo, o Médico dos Médicos, o Advogado fiel, o Amigo com qual todos podiam e podem contar.

Suas ideias e palavras são carregadas de profundo significado, sempre buscando tocar o espírito humano. Suas frases e parábolas encerram verdades profundas e ensinamentos de sublimidade que ainda hoje não nos foi possível absorver por completo e, sempre que se volta para elas, sorve-se um pouco mais do perfume e da beleza.

Quando Jesus proferiu o discurso que Mateus reproduziu, suas palavras – parecendo inocentes – não estavam se referindo tão somente aos nossos membros superiores. Uma interpretação do significado espiritual se faz necessária para tentar absorver um pouco da lição verdadeira.

A cultura da época era rica em símbolos, Jesus como profundo conhecedor da cultura a que pertencia sabia disso. Em diversas passagens da Bíblia – do novo e do velho testamentos – encontram-se diversas alusões às mãos, quase sempre deixando evidente tratar-se da esquerda ou da direita. Há passagens que se referem às mãos (Isaías 41:13; Salmos 80:15; 1 Pedro 3: 22; Atos 7: 56), outras não, mas a questão do lado esquerdo ou do lado direito está lá (Marcos 14: 62 – 16: 19; Romanos 8:34).

O que Jesus quis dizer?

As pessoas têm um lado do corpo predominante, com mais força ou habilidade. A maioria é destra, ou seja, tem o lado direito dominante. Quem tem o lado esquerdo mais atuante e habilidoso, diz-se canhota.

Destro quer dizer habilidoso, ágil, sagaz, correto. Canhoto tem mesma raiz de canhestro, acanhado, significando desajeitado, grosso, torto, tanto que em tempos passados a palavra também era usada como sinônimo de demônio e diabo. Felizmente, hoje isso é passado e a ciência comprovou que ser destro ou canhoto não faz de ninguém melhor ou pior e que é tão relevante quanto a cor dos cabelos ou dos olhos, o formato da orelha ou do nariz.

Sem pretensão de monopólio da verdade e buscando o pensamento de gente mais gabaritada e experiente em evangelho, percebe-se que uma das interpretações possíveis da lição é a de que ela pretende ressaltar que ao realizarmos uma boa ação (dar esmola, por exemplo), devemos praticá-la com a “mão direita” (agir corretamente, praticar o ato por caridade, enfim, seja nossa boa índole atuando) e que a “mão esquerda” não deverá ficar sabendo (agir movido por vaidade, caridade fingida, ação calculada visando benefício próprio).

Portanto, parece claro que Jesus pretendeu ensinar que ao praticar-se uma boa ação, seja qual for, devemos fazê-la utilizando nosso lado bom, que é a manifestação do sentimento de caridade, a vontade sincera de ajudar, sem querer qualquer tipo de recompensa, vantagem ou reconhecimento. Que devemos vigiar nosso lado sombra, pois ele pode querer apropriar-se da intenção de fazer o bem e transformá-la numa ação egoísta, calculada, vaidosa e apegada a resultados ou a reconhecimentos (o aplauso dos homens).

A satisfação pela ação no bem deve ser íntima, não vaidosa, que se traduz na alegria pela oportunidade de praticá-la, pela oportunidade de ver um rosto triste transformar-se em expressão de felicidade. Mahatma Ghandi denominava: “trabalho desapegado”.

Façamos nossa autoanálise e busquemos constatar se nossas ações no bem são verdadeiramente desapegadas. Se praticamos a virtude pelo bem da virtude, ou se estamos a buscar algo em troca ou reconhecimento. Se nossas ações visam melhorar o mundo em que vivemos, ajudando às pessoas a saírem do fosso da ignorância e do sofrimento.

Ao agir no bem estamos cuidando para que “a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita“?

Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

O mês de abril marca importantes acontecimentos para a doutrina espírita. Em 1º de abril de 1858, Allan Kardec fundava, em Paris, ladeado por diversos estudiosos, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – SPEE. Um ano antes, em 18 de abril de 1857, Kardec havia publicado a primeira edição de “O Livro dos Espíritos”.

Foi uma das providências mais significativas tomadas pelo codificador, a de procurar estabelecer a melhor maneira de pesquisar esse mundo que se abria diante da humanidade, de estudar os procedimentos para o relacionamento com os desencarnados e de difundir os ensinos dos Espíritos superiores.

No mês seguinte à fundação, seria publicado o primeiro exemplar da Revista Espírita, verdadeiro laboratório onde teses eram discutidas, fenômenos eram expostos e analisados, ou seja, a doutrina espírita em seus primeiros dias, em plena construção.

Eis as palavras de Kardec, acerca da fundação da SPEE:

“A extensão por assim dizer universal que tomam diariamente as crenças espíritas faziam desejar vivamente a criação de um centro regular de observações. Esta lacuna acaba de ser preenchida. A Sociedade cuja formação temos o prazer de anunciar, composta exclusivamente de pessoas sérias, isentas de prevenções e animadas do sincero desejo de esclarecimento, contou, desde o início, entre os seus associados, com homens eminentes por seu saber e por sua posição social. Estamos convictos de que ela está chamada a prestar incontestáveis serviços à constatação da verdade. Sua lei orgânica lhe assegura uma homogeneidade sem a qual não haverá vitalidade possível; está baseada na experiência dos homens e das coisas e no conhecimento das condições necessárias às observações que são o objeto de suas pesquisas. Vindo a Paris, os estranhos que se interessam pela doutrina espírita terão um centro ao qual poderão dirigir-se e comunicar suas próprias observações”

Celebramos, assim, este importante fato (a constituição do primeiro centro espírita do mundo) para os espíritas e para aqueles que, de boa-vontade, procuram dar sua colaboração para a espiritualização da humanidade.

Obsessão, fascinação e subjugação

Temas que interessam a todos os que se ocupam de estudar e ler sobre assuntos do espírito.

Graças aos filmes que carregam na tinta quando abordam o tema, graças às crendices acumuladas ao longo dos séculos, em formas de contos e lendas que, da mesma forma, receberam tintas fortes, o assunto ainda é de difícil compreensão, principalmente pela falta generalizada dos hábitos da leitura e da pesquisa.

Allan Kardec, e não poderia ter sido diferente, aborda a questão da obsessão principalmente em “O Livro dos Médiuns“.

Ao abrir o Capítulo XXIII, Kardec deixa logo clara a primeira intenção de um espírito obsessor: “o domínio que logram adquirir sobre certas pessoas.”

Dominar mentes é atitude típica de espíritos inferiores. Os espíritos superiores têm como regra áurea o livre-arbítrio. Aconselhar, auxiliar na luta contra as más influências e os maus pensamentos, isso eles fazem. Se percebem que não são ouvidos, por respeito, afastam-se e aguardam que suas presenças e influências salutares sejam almejadas.

Kardec classifica a obsessão em três grandes grupos: obsessão simples, fascinação e subjugação.

A obsessão simples seria algo como uma perturbação, incômodo. Situação que os mais atentos logo percebem, e buscam esforçar-se para se verem livres.

Quanto à fascinação, Kardec lhe deu maior atenção pelo fato de ser sutil, insidiosa, porque explora as fragilidades morais do obsedado, fazendo com que não se dê conta de que está sob uma influência que tem a intenção de dominá-lo. O fascinado não se dá conta e normalmente não aceita o fato, inclusive quando outras pessoas tentam fazê-lo enxergar o que acontece. De consequências graves, porque tende a acompanhar a pessoa durante muito tempo, podendo mesmo estender-se para além-túmulo.

Já a subjugação, apesar de ser uma forma bastante intensa de obsessão, visto haver situações em que o obsedado chega a perder o comando de suas ações, em muitos casos não chega a ter a gravidade de uma fascinação (A Gênese, 14:46), pois aquele a quem o obsessor domina tem a consciência de estar sob o efeito de uma vontade externa, por isso, deseja e busca ver-se livre dela.

Eis, em resumo, o que a doutrina espírita nos oferece sobre o tema. Deve-se ter em mente que os fenômenos retratados em filmes estão longe da realidade. Os espíritos inferiores que querem mesmo perturbar e maltratar alguém, agem em silêncio, seduzindo, envolvendo, até ver a ruína completa do seu desafeto.

Não se conclua, do que foi dito, que qualquer comportamento meio diferente seja obsessão. Kardec fez esta advertência, dizendo: cumpre, todavia, se não atribuam à ação direta dos Espíritos todas as contrariedades que se possam experimentar, as quais, não raro, decorrem da incúria, ou da imprevidência.

Tem solução? Claro! Evoluir moral e intelectualmente.

Isso demora! Até lá, que fazer? Cultivar o hábito da prece (que nos põe em sintonia com os bons espíritos), cultivar bons hábitos de leitura, assistir a filmes e ouvir músicas com temática moral que promovam a nobreza de caráter, a honestidade e a probidade, agir com indulgência diante das imperfeições alheias, munindo-se de compreensão e tolerância, ser fraterno e buscar ser útil à comunidade em que vive.

Com isso, acreditamos, já se obtém um bom reforço no “sistema imunológico espiritual”.

Livros Espíritas e “livros espíritas”

Excelente entrevista com Divaldo Pereira Franco.

Postagem do blog do Jerônimo Mendonça que reproduzimos abaixo.

Opinião de Divaldo sobre a enxurrada de livros “espíritas” no mercado. Reencarnação no plano espiritual?!?!?!
Segue trechos da entrevista de Divaldo Franco do livro Conversando com Divaldo Pereira Franco editado pela Federação Espírita do Paraná sobre as obras espíritas.
FEP:O movimento espírita tem sido invadido por uma enxurrada de publicações que trazem a informação de serem mediúnicas. Temos visto que os dirigentes, vários deles, não utilizam qualquer critério de seleção doutrinária. O que nos aconselha?
Divaldo: “O nosso pudor em torno do Index Expurgatorius da Igreja Romana leva-nos, sem nos darmos conta, a uma tolerância conivente. Como não nos é lícito estabelecer um mapa de obras que mereçam ser estudadas em detrimento daquelas que trazem informações inautênticas em torno dos postulados espíritas, muitos dirigentes, inadvertidamente, divulgam obras que prejudicam mais a compreensão do Espiritismo do que aclaram.
É muito comum dizer: mas é muito boa! Mas, muito boa, porém não uma obra espírita e no que diz respeito à mediunidade, a mediunidade ficou tão barateada, tão vulgarizada, que perdeu aquele critério com que Allan Kardec a estuda em “O Livro dos Médiuns”.
O médium é médium desde o berço. Os fenômenos nos médiuns ostensivos começam na infância e quando têm a felicidade de receber a diretriz da Doutrina, torna-se o que Chico Xavier denominava com muita beleza: mediunidade com Jesus. O que equivaleria dizer: a mediunidade ética, a mediunidade responsável, criteriosa, a mediunidade que não se permite os desvios do momento, os modismos.
Mas a mediunidade natural pode surgir em qualquer época e ela surge como inspiração. O indivíduo pode cultivá-la, desenvolve-la naturalmente.
Vem ocorrendo uma coisa muito curiosa, pela qual, alguns espíritas desavisados, de alguma maneira, são responsáveis: se o livro é de um autor encarnado, não se lê, porque como se ele não tivesse autoridade de expender conceitos em torno da Doutrina. Mas, se é um livro mediúnico, ele traz um tipo de mística, de uma chancela, e as pessoas logo acham que é o máximo. Adotam esse livro como um Vade Mecum, trazendo coisas que chocam porque vão de encontro aos postulados básicos do espiritismo.
Entra agora uma coisa que é profundamente perturbadora: o interesse comercial. Vender o livro sob a justificativa de que as Casas Espíritas necessitam de recursos. Para atender as necessidades, vendem obras de autoajuda, de esoterismo, de outras doutrinas, quando deveríamos cuidar de divulgar as obras do Espiritismo, tendo um critério de coerência.
Quando visitei Paris pela primeira vez, em 1967, eu fui ver e conhecer a Union Spirite Française que ficava na Rua Copernique, número 8. Era período de férias, agosto a setembro, praticamente a Europa fecha-se e a França, principalmente. A Union estava fechada. Chamou-me a atenção as vitrinas que exibiam obras: não tinha uma espírita. Eram obras esotéricas, eram obras hinduístas, eram obras de Madame Blavatsky. São todas respeitáveis, mas não temos compromisso com elas. O nosso compromisso é com Jesus e com Kardec, sem nenhum fanatismo e sem nenhuma restrição pelas outras obras, que consideramos valiosas para cultura, para ampliação do entendimento. Mas, temos que optar por conhecer a Doutrina que professamos.
Verificamos, neste momento, essa enxurrada perniciosa, porque saem mais de cinqüenta títulos de obras pseudomediúnicas por mês, pelo menos que nos chegam através dos catálogos, tornando-se impossíveis de serem lidas. O que ocorre? Eu recebo entre 10 e 20 solicitações mensais, pedindo aos Espíritos prefácios para obras que ainda estão sendo elaboradas. A pressa desses indivíduos de projetar a imagem, de entrarem nesse pódium do sucesso é tão grande que ainda não terminaram de psicografar – quando é psicográfica – ou de transcrevê-la, quando é inspirada, ou de escrevê-la, quando é de próprio punho, de própria concepção, já preocupado com o prefácio. Eu lhes digo: Bom, aos Espíritos eu não faço solicitações. Peço desculpas por não poder mandar o prefácio desejado. Espere, pelo menos, concluir o trabalho. Pode ser que eu morra, pode ser que você morra e pode ser que o Guia reencarne antes de terminar a obra.
É uma onda de perturbação para minar-nos por dentro. O Codificador nos recorda que os piores inimigos estão no próprio Movimento, o que torna muito difícil a chamada seleção natural. Nós deveremos ter muito cuidado ao examinar esses livros. Penso que as instituições deveriam ter uma comissão para lê-los, avaliar a sua qualidade e divulgá-los ou não, porquanto as pessoas incautas ou desconhecedoras do Espiritismo fascinam-se com ideias verdadeiramente absurdas.
Tenho ouvido e visto declarações pessoais de médiuns que dizem não serem espíritas e não terem nenhum vínculo com qualquer “ismo”; são livres atiradores e as suas obras são vendidas nos Centros Espíritas, porque vendem muito. Até amigos muito queridos têm, em suas livrarias, nos Centros Espíritas que frequentam, essas obras que são romances interessantes, como os antigos romances de Agatha Christie, de M. Dellyt e tais. Mas essas obras não são espíritas, embora ditadas por um Espírito, mas ditadas ao computador.
Essas obras são muito interessantes, ninguém contesta, mas o tempo que se gasta, lendo-as, é um desvio do tempo de aprendizagem da Doutrina Espírita. As pessoas ficam sempre à margem, não se aprofundam. Observo, em nossa Instituição, pelas perguntas infantis que me fazem.
É necessário que procuremos divulgar a Doutrina, conforme nós a herdamos do ínclito Codificador e das entidades venerandas, que preservaram essa Doutrina extraordinária, para que nós possamos contribuir com a construção de um mundo melhor.
A respeito desses livros que proliferam, me causam surpresa, quando amigos com quarenta, cinqüenta anos de idade, pessoas lúcidas, pessoas cultas, que nunca foram médiuns, ou, pelo menos, jamais o disseram, escrevem livros até ingênuos, que nem são bons nem são maus, e rotulam como mediúnicos e passam a vender, porque são mediúnicos.
Um dos livros mais vendidos, dito mediúnico, tem verdadeiras aberrações, em que a entidade fez do mundo espiritual uma cópia do mundo físico, ao invés de o mundo físico ser uma cópia do mundo espiritual. Inverteu, porque o Espírito está tão físico no mundo espiritual! E um Espírito do sexo feminino, que tem os fluxos catamênicos no mundo espiritual e que vai ao banheiro e dá descarga!
Outras obras, igualmente muito graves, falam de relacionamentos sexuais para promoverem reencarnação no Além. Ora, a palavra reencarnação já caracteriza tomar um corpo de carne. Como reencarnar no Além, no mundo de energia, de fluidos, onde não existe a carne? O Além, com ninhos de passarinhos multiplicando-se, em que as aves vêm, chocam e nascem os filhotinhos. Não é que estejamos contra qualquer coisa, mas é que são delírios, pura fascinação.
Acredito que alguns desses médiuns são médiuns autênticos. Ocorre que eles não perderam a mediunidade, a sua faculdade mediúnica é que mudou de mãos, daquelas entidades respeitáveis para as entidades frívolas que estão criando verdadeiros embaraços, porque em determinados seminários, palestras, fazem perguntas diretas e ficamos numa situação delicada, porque citam os nomes. Toda vez que dizem os nomes eu me recuso responder. Numa pergunta em tese muito bem, mas declinar nomes, não. Não tenho esse direito de levar alguém ao escárnio.
Dessa forma, o problema é mais grave do que parece, porque muitos também estão fazendo disso profissão, embolsam o resultado das vendas. Enquanto outros justificam obras de má qualidade, por terem um objetivo nobre: ajudar obras de assistência social. Os meios não justificam os fins.”

 

 

Espíritos Superiores, Guias e Mentores

Os espíritos superiores, também denominados guias espirituais ou mentores, são guias e superiores em quê?

Percebe-se grande confusão entre espíritas, simpatizantes e críticos do espiritismo quanto à compreensão que se deve ter acerca da expressão “espíritos superiores” ou “guias espirituais”.

O senso comum apontará no sentido de que tais espíritos integram algo como uma hierarquia superior e, como tal, os que se encontram “abaixo” lhes devem respeito e um certo temor reverencial. No entanto, segundo a codificação espírita não é bem assim.

Abordando o tema, ao comentar “O Livro dos Espíritos”, Miramez – espírito que já tem considerável volume de textos e livros presentes em praticamente todo centro espírita dotado de razoável biblioteca – registrou apontamentos em sua obra “filosofia espírita” que valem a pena ser transcritos:

Somos todos iguais, sabemos disso, porém, situados em lugares diferentes e com idades variáveis diante do Nosso Pai. Somos como frutos da grande árvore, Deus, e como os frutos de uma árvore não amadurecem de uma só vez, assim são os Espíritos, mas nenhum se perde. Como filhos de um Pai de amor, não haverá órfãos.
Novamente falamos em escala espírita, para teres uma ideia e te esforçares no aprimoramento, cultivando todas as virtudes e desenvolvendo todos os dons do saber. O que interessa ao espírito já consciente da verdade é se libertar da ignorância, porque onde existe ignorância, existem dor e problemas sem conta.

Allan Kardec, visando esclarecer a classificação adotada, deixou o seguinte comentário: a classificação dos Espíritos se baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se. Esta classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu conjunto cada categoria apresenta caráter definido.

Observa-se, portanto, que nós mesmos podemos ser tidos como superiores em relação a espíritos ainda muito primitivos, iniciantes no processo evolutivo, assim como há outros que vão a nossa frente e que, neste momento, poderão ser considerados superiores e servirem de guias ou mentores. Essa condição, aliás, não lhes dá quaisquer privilégios sobre os demais, trata-se tão somente de um encargo que assumem, como um orientador, um preceptor. A ascendência que podem exercer decorre tão só de suas qualidades morais, sem quaisquer intenções de controle ou domínio.

Não faz sentido, portanto, a submissão que por vezes se vê alhures, por parte de médiuns e frequentadores de centros espíritas. Paradoxalmente, críticos da doutrina espírita acreditam que deva ser assim, demonstrando que muitos não estudaram a doutrina o suficiente para uma análise acurada.

Os espíritos ditos guias e mentores não são perfeitos (como ensinam os Espíritos superiores, o exemplo de perfeição que Deus nos oferece para nossa inspiração é Jesus), podem ser mais experientes, vividos, situação que lhes credencia ao encargo. No entanto, isso não os torna senhores absolutos da verdade, infalíveis. Podem, e normalmente isso ocorre, ter seus próprios sistemas e crenças e serve de exemplo o próprio Emmanuel que através da psicografia de Chico Xavier, na obra “O Consolador“, defendeu a crença na teoria das “almas gêmeas“, tendo, porém, a humildade de ressalvar tratar-se de sua opinião particular, afinal chocara-se com a posição da maioria dos espíritos registrada em “O Livro dos Espíritos“, segundo entendimento da editora responsável pela publicação do trabalho.

Portanto, os espíritos superiores, guias e mentores cumprem papel relevantíssimo na evolução da humanidade, através da inspiração de bons propósitos e valores que buscam dignificar a condição humana, não estando entre suas atribuições resolver os problemas que são nossos, proteger-nos dos acontecimentos que se fazem necessários ao nosso crescimento e acúmulo de experiências. Eles não são infalíveis, ainda têm imperfeições a burilar, podem ser bastante evoluídos em um aspecto e serem ignorantes em outro, competindo a nós que nos propomos ao intercâmbio com esse mundo o cuidado de saber separar o que é da opinião geral, apto a ser considerado como tal, das opiniões ou sistemas particulares, ainda que incontestavelmente bem intencionados, para não cairmos em equívocos que poderão criar transtornos à nossa caminhada evolutiva.

Como saber? Qual a bússola que aponta a rota segura? A resposta é: estudemos as obras básicas da doutrina espírita!

Portanto, recomendamos a você, leitor, que procure um centro espírita que dá primazia à codificação espírita (pois assim deve ser uma casa que se propõe ser espírita) e a põe no seu devido lugar, na base, e, antes de tudo, não se contente com interpretações prontas, nem com “resumo dos resumos”; busque você, através do esforço próprio, a compreensão dessa doutrina que lhe ajudará na compreensão de suas dificuldades íntimas, de seus pensamentos, de suas dúvidas e sentimentos muitas vezes conflituosos.

Antes de mais nada, seja questionador! Isso se a meta de desenvolver as asas que permitirão sair da posição de imaturidade e ignorância em direção à luz estiver nos seus planos. O tempo e o esforço investidos valerão à pena, não tenha dúvida.

Bons estudos!