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Cuide da mão esquerda e invista na mão direita

Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; – a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará. (MATEUS, 6: 3 a 4.)

Jesus é o modelo de perfeição a que a humanidade pode aspirar, disseram os espíritos à Allan Kardec (LE, 625). Foi o maior Pedagogo, o maior Psicólogo, o Médico dos Médicos, o Advogado fiel, o Amigo com qual todos podiam e podem contar.

Suas ideias e palavras são carregadas de profundo significado, sempre buscando tocar o espírito humano. Suas frases e parábolas encerram verdades profundas e ensinamentos de sublimidade que ainda hoje não nos foi possível absorver por completo e, sempre que se volta para elas, sorve-se um pouco mais do perfume e da beleza.

Quando Jesus proferiu o discurso que Mateus reproduziu, suas palavras – parecendo inocentes – não estavam se referindo tão somente aos nossos membros superiores. Uma interpretação do significado espiritual se faz necessária para tentar absorver um pouco da lição verdadeira.

A cultura da época era rica em símbolos, Jesus como profundo conhecedor da cultura a que pertencia sabia disso. Em diversas passagens da Bíblia – do novo e do velho testamentos – encontram-se diversas alusões às mãos, quase sempre deixando evidente tratar-se da esquerda ou da direita. Há passagens que se referem às mãos (Isaías 41:13; Salmos 80:15; 1 Pedro 3: 22; Atos 7: 56), outras não, mas a questão do lado esquerdo ou do lado direito está lá (Marcos 14: 62 – 16: 19; Romanos 8:34).

O que Jesus quis dizer?

As pessoas têm um lado do corpo predominante, com mais força ou habilidade. A maioria é destra, ou seja, tem o lado direito dominante. Quem tem o lado esquerdo mais atuante e habilidoso, diz-se canhota.

Destro quer dizer habilidoso, ágil, sagaz, correto. Canhoto tem mesma raiz de canhestro, acanhado, significando desajeitado, grosso, torto, tanto que em tempos passados a palavra também era usada como sinônimo de demônio e diabo. Felizmente, hoje isso é passado e a ciência comprovou que ser destro ou canhoto não faz de ninguém melhor ou pior e que é tão relevante quanto a cor dos cabelos ou dos olhos, o formato da orelha ou do nariz.

Sem pretensão de monopólio da verdade e buscando o pensamento de gente mais gabaritada e experiente em evangelho, percebe-se que uma das interpretações possíveis da lição é a de que ela pretende ressaltar que ao realizarmos uma boa ação (dar esmola, por exemplo), devemos praticá-la com a “mão direita” (agir corretamente, praticar o ato por caridade, enfim, seja nossa boa índole atuando) e que a “mão esquerda” não deverá ficar sabendo (agir movido por vaidade, caridade fingida, ação calculada visando benefício próprio).

Portanto, parece claro que Jesus pretendeu ensinar que ao praticar-se uma boa ação, seja qual for, devemos fazê-la utilizando nosso lado bom, que é a manifestação do sentimento de caridade, a vontade sincera de ajudar, sem querer qualquer tipo de recompensa, vantagem ou reconhecimento. Que devemos vigiar nosso lado sombra, pois ele pode querer apropriar-se da intenção de fazer o bem e transformá-la numa ação egoísta, calculada, vaidosa e apegada a resultados ou a reconhecimentos (o aplauso dos homens).

A satisfação pela ação no bem deve ser íntima, não vaidosa, que se traduz na alegria pela oportunidade de praticá-la, pela oportunidade de ver um rosto triste transformar-se em expressão de felicidade. Mahatma Ghandi denominava: “trabalho desapegado”.

Façamos nossa autoanálise e busquemos constatar se nossas ações no bem são verdadeiramente desapegadas. Se praticamos a virtude pelo bem da virtude, ou se estamos a buscar algo em troca ou reconhecimento. Se nossas ações visam melhorar o mundo em que vivemos, ajudando às pessoas a saírem do fosso da ignorância e do sofrimento.

Ao agir no bem estamos cuidando para que “a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita“?

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